08.02.2009
Cibercrimes e sua profissionalização
A informática e a internet mudaram o mundo, e com o crime não foi diferente. Antigamente (e o “antigamente”, neste caso, não se refere ao tempo das carruagens, mas a qualquer momento antes de 1995, quando a população planetária começou a se enroscar na “grande rede mundial”), a maior parte dos crimes, mesmo os golpes mais elaborados, exigia uma certa dose de coragem e audácia – ou de absoluta inconsequência -, uma vez que dependia da presença física do criminoso para acontecer.
A telemática (tecnologia de transmissão de dados resultante da união das telecomunicações com a informática) modificou isso, permitindo que qualquer mente criminosa, com um computador plugado à rede, possa conceber e praticar os golpes mais variados, sem pisar na cena do crime e com a possibilidade, maior ou menor conforme sua competência, de deixar poucos rastros a incriminá-la. Na esteira da popularização da “web”, surgiram inumeráveis modalidades de crimes ‘on-line’, que abarcam praticamente todo o Código Penal. Estelionato, roubo de senha, desvios de dinheiro de contas bancárias, incitação ao racismo, facilitação de sequestro e pedofilia estão na imensa lista dos delitos chamados “virtuais”.
Muitas vezes, as ações são executadas pelo próprio delinquente, mas há registros de casos em que especialistas são contratados por quadrilhas para desenvolver programas e executá-los. Um relatório divulgado em dezembro de 2006 por uma empresa de segurança de computadores, a McAfee, mostrou que é crescente a arregimentação de estudantes de informática por grupos de criminosos, especialmente no Leste europeu. Na região de Sorocaba há pelo menos um registro conhecido de quadrilha que contratava técnicos em informática para criar equipamentos de clonagem de cartões.
A profissionalização das quadrilhas informatizadas, como se vê, é uma tendência irreversível, e já se pode imaginar o momento – se é que ele já não chegou – em que talentos jovens terão seus estudos em cursos de Informática custeados pelo crime organizado, como tem ocorrido com o Direito.
Felizmente, as mesmas ferramentas que favorecem os bandidos também estão ao alcance da polícia, que desde o começo da década mantém, em São Paulo, uma interessante experiência de investigação e rastreamento de crimes ‘on-line‘ e eletrônicos. Apesar de o universo de usuários da internet crescer a cada dia e dos complicadores que acabam surgindo, como as “lan houses” onde nem sempre é feito o registro da clientela para uma possível investigação, a 4a. Delegacia de Delitos Cometidos por Meios Eletrônicos, instalada em 2001 na capital, tem alcançado um índice de resolubilidade da ordem de 90%, provando que a crença de que crime de computador não deixa rastros não passa de um mito moderno.
Serviço semelhante, embora sem o status de delegacia, está para ser implantado em Sorocaba, com a criação de um setor de Crimes Virtuais e uma Central de Inteligência Policial, ambos sob a coordenação do Grupo Antissequestro (GAS) da Polícia Civil. Trata-se de uma ótima notícia, pois mostra que a polícia está disposta não só a enfrentar os criminosos altamente tecnologizados que infestam o ciberspaço, como também a colocar o conceito de Sistemas de Informação a serviço da lei.
No mundo empresarial e profissional, a obtenção, organização e disposição de informações em sistemas seguros, que permitem realizar buscas, cruzamentos e estatísticas, estão modificando o conceito de gestão, embasando análises realistas do mercado e do comportamento dos consumidores e, principalmente, facilitando a tomada de decisões. Na área de Segurança Pública, o uso de sistemas de informação, com os investimentos necessários em tecnologia e treinamento de pessoal, pode desequilibrar decisivamente o jogo em favor da polícia, aumentando a eficiência dos agentes da lei na mesma proporção da inesgotável ousadia dos bandidos.
Fonte: Notícia publicada na edição de 08/02/2009 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno A
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