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02.07.2010

Senado americano discute projeto que pode tirar internet do ar em caso de ataques terroristas cibernéticos

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Reportagem do jornal Correio Braziliense publicada em 02/07 que contou com a participação de Alexandre Atheniense.

Senado americano discute projeto que pode tirar do ar a rede internacional de computadores. Autor do texto justifica a ideia alegando necessidade de proteger o país de ataques terroristas cibernéticos. Pesquisadores brasileiros criticam a proposta.

Quando o americano Tim Barnes-Lee inventou a internet em 1991, ele projetou seu crescimento de forma livre e colaborativa, de maneira que pudesse unir e conectar as pessoas ao redor do planeta. Dezenove anos depois, o mundo mudou e os governos tentam se adaptar à rede mundial de computadores, que cresce sem fronteiras. Um projeto de lei em discussão nos Estados Unidos tenta mudar a maneira com que o Estado americano lida com a grande rede. Pela proposta, o presidente ganharia poderes para inclusive desligar a internet, em caso de perigo nacional. Controversa, a proposta pode mudar a maneira com que nos relacionamos com a web.

Para o professor do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Brasília (UnB) Leonardo Lazart, do ponto de vista técnico os reflexos de uma atitude como essa em sites brasileiros seriam pequenos. “Os dados de páginas do Brasil seriam preservados e continuariam funcionando normalmente, mas os de sites americanos ficariam inacessíveis para nós”, explica o professor. “Tecnicamente a situação poderia ser corrigida, mas economicamente seria desastroso, seria o mesmo que desligar uma bolsa de valores. Criaria um verdadeiro caos social”, opina.

Durante a década de 1990, desligar a internet dos EUA poderia causar um verdadeiro apagão na web de todo o mundo. “Até 1996, dos 13 servidores raiz da internet mundial, 11 estavam em território americano. De lá pra cá, foram feitas diversas cópias destes servidores raiz, que foram espalhados pelo mundo. Se um falhar, temos vários outros com capacidade de responder por ele”, completa. Esses equipamentos servem para direcionar a navegação, informar onde está salva uma determinada informação que um internauta tenta acessar; eles não guardam os dados do conteúdo dos sites, que estão espalhados em milhões de máquinas ao redor do mundo. Atualmente existem quatro servidores raiz no Brasil, três estão na cidade de São Paulo e um em Brasília.

Independência

Com essa atual estrutura, o eventual bloqueio da internet pelos Estados Unidos não se repetiria com sites brasileiros. “Os EUA podem controlar a parte da web que se encontra dentro de seu país, mas é possível a qualquer tempo ficarmos independentes dos serviços oferecidos nesta parte da rede”, explica o professor do Departamento de Engenharia de Telecomunicações da Universidade Federal Fluminense (UFF) Luiz Schara. “A jurisdição de um país termina em sua fronteira. É possível que os EUA consigam bloquear tráfego indesejável, e que façam pressão diplomática para que sejam seguidos pelo resto do mundo, mas a decisão do que é aceitável ou não será feita país a país”, completa.

Isso não significa dizer que não haveria perdas em nível mundial. “A internet é um sistema aberto, assim, muitos dados são hospedados em outros países. Numa situação de desligamento total, tudo que ficar em território americano permaneceria inacessível”, explica o advogado especialista em direito na internet Alexandre Atheniense. Ficariam indisponíveis alguns serviços de e-mails, sites de relacionamento, serviços de hospedagem de arquivos, ou qualquer página que esteja salva lá.

Os internautas que desejam saber se os serviços que utilizam estariam sujeitos à futuramente possível lei norte-americana precisam exercitar um hábito incomum para muitos usuários: a leitura dos termos de uso. “Sempre que criamos uma conta em qualquer serviço, simplesmente clicamos em ‘aceito’, sem ler. Mas lá informam a que país aquele serviço está vinculado e caso haja algum problema legal, a que leis as duas partes devem se submeter”, explica Alexandre.

Modelo brasileiro

Apesar dos Estados Unidos tentarem ampliar a possibilidade de controle do conteúdo da web em seu território, a própria arquitetura da rede dificulta isso. Para Vagner Diniz, gerente-geral do recém-aberto escritório brasileiro da W3C (sigla para World Wide Web Consortium), instituição que cuida da evolução da internet. “Órgãos internacionais como a ONU têm cumprido um papel relevante de construir consensos em torno da governança ao estabelecer princípios de participação, abertura, privacidade e segurança na internet”, afirma.

Para ele, a maneira como é gerida a internet brasileira é um modelo a ser seguido. “Definido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil é considerado uma referência internacional de sucesso, pois é um modelo baseado no consenso dos quatro setores representados no Comitê — governo, setor privado, ONGs e universidades, sendo que a sociedade civil tem maioria dos assentos e, de uma maneira única no mundo, seus representantes são eleitos”, destaca Vagner.

Publicado na(s) categoria(s) Crimes Cibernéticos, Entrevistas, Mídia, Notícias

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